31 de Outubro, O Dia D – Drummond

Em homenagem ao dia D – Drummond, referente à publicação da notória obra “A Rosa do Povo” (1945) – do poeta modernista brasileiro Carlos Drummond de Andrade, considerado um dos maiores poetas do século XX – que completa agora setenta anos, O Psicologista publica um ensaio sobre relações analíticas entre a filosofia de Martin Heidegger, cujo pensamento tem grande influência nos campos da psicoterapia e da fenomenologia brasileira, e poesias de Drummond incluídas na obra aniversariante.


Breve introdução à Daseinsanalyse

Segundo Feijoo (2011), Daseinsanalyse foi o nome que o psiquiatra suíço Ludwig Binswanger (1881-1966) deu à prática clínica psicológica que se constituí baseada nas noções de cuidado e projeto ensejadas por Martin Heidegger (1889-1976) em sua obra “Ser e Tempo” (1927). Medard Boss (1903-1990), psiquiatra e psicoterapeuta suíço e Binswanger exploraram, cada um a seu modo, as possibilidades terapêuticas proporcionadas pela fundamentação ontológica oferecida pela filosofia de Heidegger em exercício ôntico, ou seja, na relação do pensamento conceitual do filósofo com problemas existenciais a que todo ser está sujeito (Feijoo, 2011). A Daseisanalyse propõe uma suspensão da primazia da técnica psicoterapêutica, tão cara ainda hoje na formação e no imaginário da Psicologia (o “o que fazer” para ser bem sucedido na clínica, “como curar”, “o que dizer” para ‘acertar’ em uma psicoterapia), sobre a consideração das causas mesmas do ser e da possibilidade de se construir uma prática clínica fundamentada nas relações últimas do sujeito com a existência e no estabelecimento de um encontro clínico que permita a autenticidade de uma relação própria.


Quem foi Martin Heidegger?

Heidegger foi um filósofo alemão reconhecido especialmente pela sua produção intelectual no campo da Fenomenologia (campo da filosofia que se ocupa com o fenômeno enquanto tal, como este se apresenta para a consciência). Foi assistente e, seguidamente, sucessor de Edmund Husserl como professor na Universidade de Freiburg. Sua influência no campo da fenomenologia no Brasil é notória e a importância de seu trabalho dá-se pelo resgate de antigas reflexões filosóficas de certo modo deixadas em hiato na tradição. Heidegger trouxe ao cerne da discussão intelectual, em um contexto em que se necessitava de novos fundamentos e sentidos para se existir – especialmente em sua mais influente obra, “Ser e Tempo”, escrita no conturbado período da história Alemã entre as duas Grandes Guerras – a ‘questão do ser’. Propondo um diálogo com a Ontologia – eixo da filosofia que estuda as relações do “ser enquanto ser”, procurando determinar suas categorias fundamentais –, Heidegger remete a discussão aos filósofos da antiga Grécia e apresenta novas proposições acerca de certezas já consolidadas.


Carlos Drummond de Andrade e A Rosa do Povo

“A Rosa do Povo”, escrito por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), é marcante pelo latente existencialismo em sua poesia, trazendo reflexões acerca dos sentidos da vida e das possibilidades diversas de relação com o mundo. A obra é fascinante também pelo seu caráter diverso, incluindo além do caráter existencialista poemas biográficos e outros com forte cunho político, influência da imersão no pós-guerra europeu a que o autor esteve submetido.


Heidegger encontra Drummond

Dasein é a designação dada por Heidegger para o homem e quer dizer “ser-aí”. O “aí” é o lugar, onde o ser se desvela. Apenas o homem é um Dasein, e só o Dasein existe. Tudo o mais é, pois apenas o homem é capaz de questionar-se sobre sua própria causa. Sendo um ser-aí, e portanto um ente que existe, por existir tem sua essência designada na sua existência. O Dasein é ser-no-mundo, e isso refere-se “a um fenômeno de unidade” (Heidegger, 1927). Ao conceituar ser-no-mundo, Heidegger tem mundo como “tudo que existe na natureza assim como toda e qualquer forma de produção artística ou científica” (Ferreira, s. d.), porém, não só: mundo também se refere a algo estrutural, constituinte do homem. O poema “Campo, Chinês e Sono” expressa como as existências se confundem e se entrelaçam, e como as possibilidades do Dasein extrapolam a sua essência e este acaba por se conectar a outros entes.

O chinês deitado

no campo. O campo é azul,

roxo também. O campo,

o mundo e todas as coisas

têm ar de um chinês

deitado e que dorme.

Como saber se está sonhando?

O sono é perfeito. Formigas

crescem, estrelas latejam,

Peixes são fluidos.

E árvores dizem qualquer coisa

que não entendes. Há um chinês

dormindo no campo. Há um campo

cheio de sono e antigas confidências.

O Testemunho trata-se de como se dá o desvelamento ôntico do Dasein. É a comunicação entre os existentes que, se fazendo compreender, revela a existência própria e a do outro. Assim se vê entre o eu-lírico e Fulana no poema “O Mito”.

Fulana às vezes existe

demais; até me apavora.

Vou sozinho pela rua,

eis que Fulana me roça.

[…]

E eu insonte, pervagando

em ruas de peixe e lágrima

Aos operários: a vistes?

Não, dizem os operários.

Aos boiadeiros: A vistes?

Dizem não os boiadeiros.

Acaso a vistes, doutores?

Mas eles respondem: Não


Um dos constituintes do homem-enquanto-estrutura, é o Habitar. É nele que o ser encontra pertencimento e é onde é revelado o existir. Habitar compreende ser-junto e nesse sentido Heidegger (2001, como citado em Teixeira, 2006) descreve: “A expressão ‘sou’ se conecta a ‘junto’; ‘eu sou’ diz, por sua vez: eu moro, me detenho junto […] ao mundo, como alguma coisa que, deste ou daquele modo me é familiar”. A noção de habitar, de familiaridade, de pertencimento, é expressa no poema “Retrato de Família”, no resgate de lembranças a partir de um retrato.

Este retrato de família

está um tanto empoeirado.

Já não se vê no rosto do pai

quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem

as viagens que ambos fizeram.

A avó ficou lisa, amarela,

sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.

O rosto de Pedro é tranqüilo,

usou os melhores sonhos.

E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.

As flores são placas cinzentas.

E a areia, sob pés extintos,

é um oceano de nevoa.

No semicírculo das cadeiras

nota-se certo movimento.

As crianças trocam de lugar,

mas sem barulho: é um retrato.

O Cuidado é o constituinte permanente para a existência do homem. As relações só se dão com base no cuidado, ele é a “sustentação existencial que permite vir-a-ser”. Nesse sentido, entende-se que o cuidado torna o homem um ser, um Dasein. A noção de cuidado tem um sentido duplo em Heidegger: cuidado como Ocupação e cuidado como Preocupação. O cuidado como ocupação refere-se aos modos de relação com os entes que têm o ser como algo dado, e se revelam através da sua utilidade instrumental. O cuidado como preocupação refere-se aos modos de relação entre os Daseins. Porém, essa preocupação pode ser expressa de três maneiras distintas: indiferença, preocupação substitutiva e preocupação ante positiva (ou antecipação libertadora).

A Indiferença trata-se de um modo de preocupação expressa de forma impessoal, inautêntica. O eu-lírico do poema Morte no Avião fala da morte descrevendo um ritual que antecede o desastre incluindo o cotidiano da sua vida, e segue relatando o acontecimento como se não estivesse imerso na situação, ou, de tão imerso, ele conhece cada detalhe e isso não o preocupa de forma que lhe afete.

Acordo para a morte.

Barbeio-me, visto-me, calço-me.

É meu último dia: um dia

cortado de nenhum pressentimento.

Tudo funciona como sempre.

Saio para a rua. Vou morrer.

[…]

A morte dispôs poltronas para o conforto

da espera. Aqui se encontram

os que vão morrer e não sabem.

Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,

pequenos serviços cercam de delicadeza

nossos corpos amarrados.

Vamos morrer, já não é apenas

meu fim particular e limitado,

somos vinte a ser destruídos.

morreremos vinte,

vinte nos espatifaremos, é agora

Talvez as formas mais comuns de relação analista/psicoterapeuta-paciente que se estabelecem sejam as que seguem. Preocupação Substitutiva é a expressão do cuidado onde um ente aparta as obrigações do outro liberando-o de cumpri-las e/ou as cumpre, o que acaba por construir uma relação de dominação/dependência. Por outro lado, Antecipação Libertadora é a preocupação que põe o outro diante das próprias possibilidades, é a preocupação que o libera para os modos próprios de ser-no-mundo e, por isso, potencializadoras da autenticidade. O eu-lírico do poema “Caso do Vestido” abdica de si em prol da satisfação do desejo do outro. A esposa coloca o marido diante da possibilidade de ter a mulher que ele tanto almejava. Ela faz a intermediação e o permite viver o que queria.

Minhas filhas, escutai

palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,

vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,

se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,

se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,

bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,

foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.

Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,

dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,

lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.

Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,

a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência

e fosse dormir com ele…

[…]

Minhas filhas, procurei

aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse

de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,

me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele

se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,

não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,

os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,

os olhos dela gozavam

[…]

Eu fiz meu pelo-sinal,

me curvei… disse que sim.

Em Heidegger, Fenômeno é entendido como “o que se revela, o que se mostra em si mesmo” (Heidegger, 2001, como citado em Teixeira, 2006). Ao se revelar a si próprio, o ente pode fazê-lo de diversas formas. Quando “se faz ver assim como…”, o ente se mostra como o que ele em si não é. Esse mostrar-se é chamado de “parecer, aparecer e aparência”. Porém Heidegger, em quesito de terminologia, usa a palavra fenômeno para apenas expressar o significado positivo do revelar-se. O poema “Carrego Comigo” apresenta um clamor do eu-lírico diante da impotência em descobrir o que constitui o “embrulho” que ele carrega.

Por que não me dizes

a palavra dura

oculta em teu seio,

carga intolerável?

Seguir-te submisso

por tanto caminho

sem saber de ti

senão que te sigo.

Se agora te abrisses

e te revelasses

mesmo em forma de erro,

que alivio seria!

A angústia do eu-lírico pelo que ainda não fora revelado, pelo que não se mostrou, é clara. Ao almejar “se agora te abrisses e te revelasses mesmo em forma de erro, que alivio seria!” a sua fala registra a importância do revelar-se por parte do ente para que haja entendimento da sua totalidade.


A Angústia tem lugar de destaque nas indagações a respeito do “ser” em Heidegger. Ela é a disposição que afeta o Dasein ainda que haja plenitude técnica e objetiva na vida. A condição ontológica de incompletude e de constante necessidade de ressignificação que compõe o Dasein é resgatada ou vislumbrada quando um acontecimento na vida do ser-aí rompe a cotidianidade imprópria através da exacerbação da angústia. Apesar de ser uma disposição primária e geralmente evitada pelo Dasein, é essencial para a apropriação de uma nova existência, de uma “desidentificação” com o que é tido como dado na dialética do ser-aí. Para Heidegger, toda angústia origina-se na “possibilidade da impossibilidade de todas as possibilidades”, a saber, ‘angústia da morte’. A deflexão típica ao lidar com a possibilidade ôntica da morte por parte do Dasein é também enxergada na constante fuga do enfrentamento da angústia cotidiana. A ‘imprevisibilidade de eventos’ não-aceita pelo Dasein, mas inexpugnável da existência, gera sofrimento. Na poesia “A Flor e a Náusea” Drummond nos apresenta um eu-lírico imerso na impessoalidade, vítima da cotidianidade imprópria tão comum na grande cidade:

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

A existência insípida afoga o ser-aí e a falta de sentido enoja.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

A angústia gera possibilidade de ressignificações e o estranhamento passa a ser desejado, acolhido.

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

E quando é possível entregar-se à propriedade, ao pensamento meditante, à singularidade, e assim opta-se por fazer, há perspectivas e potencialidades a serem desveladas.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Como uma flor que perfura o asfalto, a busca pela existência própria enfrenta camadas e camadas de impessoalidade. É preciso desenvolver mais que uma conversão conceitual a respeito da vida. Antes, deve-se buscar uma revolução de atitudes com a maneira de significação de si e do mundo, abraçando a responsabilidade das diversas formas de poder-ser na existência mesma.

Para Heidegger a Impessoalidade e a Pessoalidade são constitutivos ontológicos da existência, permanecendo sempre em jogo em nosso existir. O que caracteriza a impessoalidade é a fuga de si mesmo: o Dasein tenta se esquecer de seu ser (e de todas as problemáticas que ele enseja) e transforma sua potência numa existência inautêntica e superficial. É o que podemos perceber no poema “Vida Menor” de Drummond, onde o eu-lírico tenta se esquivar de sua angústia recorrendo à impessoalidade.

A fuga do real,
ainda mais longe a fuga do feérico,
mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,
a fuga da fuga, o exílio
sem água e palavra, a perda
voluntária de amor e memória,
o eco
já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,
a mão tornando-se enorme e desaparecendo
desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis,
senão inúteis,
a desnecessidade do canto, a limpeza
da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.
Não a morte, contudo.

Mas a vida: captada em sua forma irredutível,
já sem ornato ou comentário melódico,
vida a que aspiramos como paz no cansaço
(não a morte),
vida mínima, essencial; um início; um sono;
menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;
o que se possa desejar de menos cruel: vida
[…]

porque o tempo não mais se divide em seções, o tempo
elidido, domado.
Não o morto nem o eterno ou o divino,
apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente
e solitário vivo.
Isso eu procuro.

O Dasein se encontra sempre em Débito, justificado pela impossibilidade da realização de todas as possibilidades. Vamos construindo nossa trajetória ao longo da vida e todas as nossas decisões são refletidas em nosso futuro: escolhemos um caminho enquanto todas as outras estradas possíveis são fatalmente deixadas de lado, o que possibilita, entretanto, a Singularização de nossa existência. A angústia e o Clamor, que é a ‘voz da consciência’, aparecem no momento de reflexão do indivíduo sobre si mesmo e sua trajetória de vida. O Dasein se questiona acerca da sua identidade, “Estarei agindo com autenticidade?”, e analisa o resultado das suas escolhas até o agora. Encontramos esses três conceitos condensados no trecho da poesia “Versos à Boca da Noite”. Aqui o eu-lírico, numa etapa temporal mais avançada da vida, passa a refletir sobre sua existência até então e questionar a si mesmo:

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva…
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? Sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome. Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação de minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

E tanta indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela,

E fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a idéia de passado
visitar-te na curva de um jardim.
[…]

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.


A inevitável Morte é preocupação intrínseca à humanidade, e na maioria das vezes lidamos com isso nos alienando num não refletir sobre ela, agindo como se não fosse um horizonte possível ou digno de atenção. Para Heidegger isso é experiência impessoal da própria morte do Dasein, que é antes um ser-para-a-morte. No trecho do poema “Morte no Avião” pode-se observar a angústia do eu-lírico ao se deparar com a morte e a finitude de sua existência, a possibilidade da impossibilidade de todas as possibilidades.

Acordo para a morte.

Barbeio-me, visto-me, calço-me.

É meu último dia: um dia

[…]

Saio para a rua. Vou morrer.

Não morrerei agora. Um dia

Inteiro se desata à minha frente.

[…]

Visito o banco. Para que

esse dinheiro azul se algumas horas

mais, vem a polícia retirá-lo

do que foi meu peito e está aberto?

Mas não me vejo cortado e ensangüentado.

Estou limpo, claro, nítido, estival.

Não obstante caminho para a morte.

Segundo Heidegger a Disposição Afetiva é onticamente conhecida como o estado de humor: o Dasein está sempre em determinado estado de humor. Ao avaliarmos o estado de humor de alguém estamos enxergando como aquele ser está e se torna. Alterações no estado de humor têm algo a dizer sobre o que está se passando com o ser-aí. No trecho da poesia “Onde há Pouco Falávamos”, vemos o efeito que a frustração causou no piano (fazendo-se analogia com o Dasein, respeitando a liberdade poética do autor de atribuir características humanas a objetos inanimados) alterando significativamente seu temperamento e estado de humor, revelando o descontentamento de seu ser.

É o irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,

busto e humour. Uma dolência rígida,

o reumatismo de noites imperiais, irritação

de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,

e tudo que deixam mudanças,

viagens, afinadores,

experimento de jovens,

[…]

golpes de ar, madeira bichada,

tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,

meio grotesco também, nada piedoso.

Compreensão está sempre presente na disposição do Dasein. É o seu modo de acesso ao mundo e aos entes, potencialmente enquanto abertura de sentidos, mas geralmente tendendo ao fechamento. O ‘Outro’ já é tido como dado, componente apreendido e classificado através de estruturas pré-estabelecidas do ser-aí numa tentativa de evitar o estranhamento, assim como o Dasein relaciona-se com o mundo: ser-no-mundo através de redes estruturais de significância e ser-com-o-outro numa compreensão estruturante de significações. Na poesia “O Mito”, Fulana, mulher e musa, aparece distante sob o olhar objetivo, quase uma estranha.

Sequer conheço Fulana,

vejo Fulana tão curto,

Fulana jamais me vê,

mas como eu amo Fulana.

Objeto e sujeito numa trama de apreensões e fugas, intimidades e anonimato, mas que se toma por conhecida, mesmo sem ter nome.

E sequer nos compreendemos.

É dama de alta fidúcia,

tem latifúndios, iates,

sustenta cinco mil pobres.

É figura genérica, representante da compreensão e interpretação subjetivas do ser consigo, alcançada até que se faça real, apenas até que seja-com, mas alcançada sim.

Mas Fulana será gente?

Estará somente em ópera?

Será figura de livro?

Será bicho? Saberei?

No ambiente psicoterapêutico (mas não exclusivamente) o cliente por vezes ancora suas estruturas e projeta no terapeuta suas pré-compreensões – o que propõe uma nova forma de enxergar a ‘transferência’ Freudiana. Observam-se conexões familiares que nunca se fizeram de fato, mas essenciais à dinâmica terapêutica. Tais processos são oportunidades de desvelamento de sentidos estabelecidos e abrem possibilidades de novas interpretações, novos sentidos na existência do Dasein para o terapeuta explorar.


Se é condição ontológica do Dasein a ‘existência’, seus desvelamentos de sentido numa jornada pela singularidade, e se a compreensão é sempre intrínseca às disposições do ser, o Discurso é a manifestação, a articulação da compreensão do ser-no-mundo através das palavras e do silêncio, seja no discurso impessoal do falatório ou através do diálogo autêntico. Na poesia “Nosso Tempo”, Drummond escreve:

Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir.

O ser-no-mundo é o discurso, ou ao menos não tem sentido sem ele.


Em Heidegger, a Fenomenologia apropria-se de uma dimensão Hermenêutica. O desvelamento dos sentidos do discurso e do texto está inexoravelmente submetido aos sentidos e contextos históricos de sua produção. Mas tal procedimento é também o que possibilita a desidentificação com os sentidos impessoais que nos tomam e o vislumbre das diversas possibilidades de existência do ser, já que o homem existe no próprio tempo, tendo ao alcance os recursos para a compreensão de si. Uma apropriação do poema “Procura da Poesia” de Drummond ilustra:

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Heidegger designa o nosso tempo moderno de Era da Técnica, segundo Carreteiro, Dantas e Sá (2009) um “horizonte histórico de desvelamento de sentido dos entes, ao qual o homem moderno corresponde, tanto mais fascinado e impotente, quanto mais alimenta a ilusão de que o produz voluntariamente e controla”, tempo marcado pelas relações de uso estabelecidas entre os entes, com caráter objetivista. O estabelecimento dessa mentalidade leva-nos a uma erradicação do Pensamento Meditante – fonte de reflexão, segundo a filosofia Heideggeriana, que possibilita a abertura do ser às possibilidades próprias da existência – em benefício do Pensamento Calculante: tecnicista, ainda que sem números, racional e matemático, como no poema “Consolo na Praia”:

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra.

Mas tens um cão.

O que nos vale são os recursos, as disponibilidades. A realidade passa a ser um objeto alvo de controle e categorização e o que não pertence ou não compartilha aos sentidos estabelecidos do mundo pela técnica, é patológico. Enquanto o pensamento calculante, segundo Heidegger (2000) “(…) nunca pára, nunca chega a meditar (…) não é um pensamento que medita (ein bessinnliches Denken), não é um pensamento que reflete (nachdenkt) sobre o sentido que reina em tudo o que existe”, o pensamento meditante permite ao ser um confrontar da estranheza e a ressignificação, viabilizando um abraço da verdade do mundo enquanto incontrolável, imprevisível, resultando no que se designa por Serenidade. O poema “Desfile” relata os pensamentos que passam pela mente do eu-lírico momentos antes de dormir:

O rosto no travesseiro,

escuto o tempo fluindo

no mais completo silêncio.

A reflexão sobre os lugares que se ocupa na existência leva inevitavelmente à angústia pelo confrontamento com a impropriedade.

Estou perdido na névoa,

na ausência, no ardor contido

O mundo me chega em cartas.

Entretanto, enxergar a realidade da morte traz aberturas.

Vinte anos ou pouco mais,

tudo estará terminado.

O tempo fluiu sem dor.

Resta ao ser apropriar-se de si em todas as suas potencialidades.


Daseinsanalyse, abordagem psicoterapêutica com atitude fenomenológica e hermenêutica, e fundamentada na analítica Heideggeriana de Ser e Tempo, constitui uma oposição à hegemonia do pensamento calculante da Era da Técnica e à visão objetivista e naturalista do ser do homem em benefício de um olhar atento à realidade do ser-no-mundo. Os modos de aversão extrema e sistemática à toda angústia e constituem as formas patológicas de existência, manifestando-se enquanto fobias, compulsões, pânico e depressão. O processo terapêutico busca construir um caminho de resgate das possibilidades mais próprias do ser. O desvelamento dos sentidos dados em seus entrelaçamentos e a produção de novos sentidos permite ao Dasein alcançar Cura. O ser que está sempre em jogo na dialética existencial do homem clama por alcançar singularidade, abandonando as identificações rígidas e impróprias.

Áporo

Um inseto cava

cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.

Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?

Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:

em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.

Considerações Finais

O Existencialismo elucubra sobre os sentidos do ser pelo ser, suas crises e contradições, suas solidões e euforias. Na Analítica Heideggeriana, a linguagem poética assume papel fundamental enquanto discurso construtor, produtos de sentidos. A melancolia do pós-guerra em meados da década de 40 do século XX atingiu a humanidade como um golpe de machado: rápido e brutal. Fazendo uso do célebre título de Bauman, o ‘Mal-estar da Pós-modernidade’ ganhou proporções empíricas, táteis, e havia urgência em resgatarmos questões reflexivas a respeito de quem o homem é e quais os sentidos ele pode dar a sua existência.

Em ‘A Rosa do Povo’ vê-se um Drummond envolto pela angústia, pelo impulso de ser relevante socialmente e, ao mesmo tempo, tomado por uma quase certeza de incompreensão de si por outros. A terapêutica não é propriamente um ambiente, uma sala ou consultório, mas um processo dialético do ser, e Drummond nos proporciona um ingresso de camarote a confidências íntimas de um processo terapêutico cujas identificações transcendem a razão.

Por fim, as reflexões propostas por Heidegger em Ser e Tempo nos proporcionam recursos teóricos e ‘técnicos’ inegáveis e essenciais para um entendimento holístico e contemporâneo do sujeito que se apresenta à Psicologia.

Trabalho originalmente escrito por Costa, M., Sousa, G., e Vieira, L.


Referências Bibliográficas e Literatura Relacionada

Andrade, C. (1984). A rosa do povo (Nova ed.). Rio de Janeiro-RJ: Editora Record.

Dantas, J., De Sá, R., & Carreteiro, T. (2009). A patologização da angústia no mundo contemporâneo. Arquivos Brasileiros De Psicologia.

De Sá, R. (Palestrante) A Analítica Heideggeriana da Existência em “Ser e Tempo”. V Jornada IFEN. Palestra conduzida no IFEN, Rio de Janeiro.

Feijoo, Ana Maria Lopez Calvo de. (2011). A clínica Daseinsanalítica: considerações preliminares. Revista da Abordagem Gestáltica, 17(1), 30-36. Recuperado em 31 de outubro de 2015, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672011000100006&lng=pt&nrm=iso

Ferreira, A. (s.d.). O destino como serenidade. Recuperado em 28 de Novembro de 2014, de http://www.ppgf.ufba.br/producao/O_destino_como_serenidade.pdf

Heidegger, M. (2005). Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes.

Houaiss, A. (1975). Estudos da Literatura Brasileira (Vol. 4). Rio de Janeiro: Imago.

Teixeira, S. M. (2006). A Noção de Habitar na Ontologia de Heidegger: Mundanidade e Quadratura. Salvador.

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