Nem Tudo Acontece Por Uma Razão

 Cena do filme “A vida é bela” (La vita è bella, 1997), dirigido por Roberto Benigni

Nem sempre há uma poesia ou razão por trás de acontecimentos da vida.

Suzanne Degges-White Ph.D.

28-10-2015

Você alguma vez já sofreu um contratempo ou algum infortúnio pessoal e viu amigos bem intencionados correrem para lhe consolar com as palavras, “Bem, tudo acontece por uma razão!” ou “Você só tem que achar a bênção nisso”?

Alguns de nós podem gostar de acreditar que as coisas têm sim uma razão para ocorrer, especialmente quando o incidente nos tenha causado perdas reais ou estresse psicológico. Ainda assim pode não haver nenhuma poesia existencial ou razão profunda por trás de um evento específico, à parte de qualquer explicação lógica ou baseada em fatos. Acidentes podem acontecer por que as pessoas são descuidadas ou por conta de má comunicação, apenas para nomear algumas causas especificamente relacionadas com a ação de pessoas. Outras causas podem ser devido a erros de máquinas, planejamento mal feito, mudanças inesperadas no clima, e assim por diante. Afirmar que uma coisa ruim aconteceu a uma boa pessoa por que uma lição de vida precisava ser aprendida não parece justo nem para o “estudante” nem para o “professor”.

Nem Todo Contratempo na Vida tem um Propósito Divino

Há muitas décadas atrás, o Rabino Harold Kushner escreveu um livro, Quando Coisas Ruins Acontecem a Boas Pessoas, em que ele explorava o desejo de compreender o significado desse tipo de eventos. Infelizmente, realmente não há uma maneira fácil de dar sentido ao “porquê”, mas isso não impede o indivíduo de esforçar-se para encontrar um “propósito” ou “significado” de um evento em sua vida. Após sobreviver o aprisionamento em um campo de concentração Alemão, Victor Frankl escreveu seu livro campeão de vendas Em Busca de Sentido. Ele observou que as pessoas geralmente conseguem suportar qualquer “como” que encontram na vida se elas puderem determinar o “porquê”. Acreditar que a miséria que nós experimentamos é uma parte do processo necessário para alcançar um objetivo pode nos proporcionar a força necessária para continuar seguindo em frente. Frankl acreditava que indivíduos que desistiram do seu futuro eram mais suscetíveis a morrer antes da liberdade chegar. Eles estavam desistindo da luta como se tivessem perdido a razão de viver.

Portanto, enquanto assumir que toda queda que experimentamos seja projetada “lá fora” por um propósito talvez possa não fazer sentido, pode ser de fato essencial que imbuamos de algum tipo de significado a “queda”, para que não permitamos a nós mesmos nos tornar imunes à motivação que a falha pode proporcionar. Aceitar que coisas ruins podem acontecer a pessoas boas – por razão nenhuma – pode ser uma proposição assustadora. Humanos gostam de sentir que têm algum grau de controle sobre suas vidas.

Acreditar em um plano divino que tem obstáculos e “coisas ruins” projetadas para nós é uma perspectiva que pode proporcionar conforto a algumas pessoas que estejam em dor. Pesquisas têm mostrado que uma crença em um poder superior pode ajudar pessoas a lidar melhor com muitos tipos de sofrimento. Como contraponto, outros podem sentir que um ser que nos derruba não é o tipo que engendra respeito ou crença.

Não é tanto encontrar a “razão” do infortúnio que recaiu sobre uma pessoa que é essencial – esse não é o “porquê” ao qual Frankl se referia. O “porquê” que precisa ser respondido se trata de achar uma razão para continuar vivendo e continuar crescendo, mesmo que a crise tenha ocorrido. Designar significado a um infortúnio se trata de fazer sentido de qual é a direção que você segue, o que você aprendeu sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor, e o que você vai fazer da sua história seguindo em frente.

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Victor Frankl

Qual é o seu “Porquê”?

Qual é o “porquê” que nos encoraja a suportar um tratamento doloroso para uma doença? Qual é o “porquê” que nos encoraja a honrar a memória de alguém, mas seguir em frente na vida ou no amor, no caso da perda de um parceiro? Qual é o “porquê” que permite a uma vítima de abuso confiar de novo? Qual é o “porquê” que move a vítima de um crime a recusar evitar a rota de fuga em que ela foi atacada? Olhar para o “porquê” na tentativa de dar sentido a como um infortúnio achou o caminho para a sua porta tem menos probabilidade de impulsionar à frente um ‘momentum’ positivo do que criar o “porquê” pelo qual você pretende continuar lutando.

Qual é o “porquê” que vai mover você a voltar a se levantar após sofrer uma queda? Perda, sofrimento, dor, trauma, essas não são coisas sobre as quais nós “passamos por cima”, elas são coisas que nós aprendemos a colocar em perspectiva e que tornam-se parte de quem estamos nos tornando. Qual é o seu “porquê” para não desistir?

Para ler o original publicado pela revista Psychology Today, acesse: https://www.psychologytoday.com/blog/lifetime-connections/201510/not-everything-happens-reason

Traduzido por Mytchel Costa.

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