Segunda Que Vem

Mytchel Costa

É segunda-feira. E 5:20 são os números que acredito estar vendo no celular que, ainda que cumpra sua missão de me alertar, não o faz sem me causar um momento de ira. Tive que resolver uma soma matemática que piscava na tela para ter um pouco de sossego de novo e me pergunto no que diabos estava pensando quando programei o desafio ontem à noite. L. tem o sono pesado e constato, sem muita surpresa – e com um pouco de inveja -, que o alarme só afetou a mim. Junto todas as forças que não tenho e consigo me levantar da cama depois de alguns minutos, após mais uma noite em claro, a terceira seguida, talvez.

Segundas-feiras são terríveis, mas fins de semana são superestimados. A vida é entediante de uma forma geral – como uma sala de espera abafada, acho adequado definir assim, com aquela música indistinguível tocando, uma criança chorando no colo da mãe que parece não enxergá-la, quatro revistas que contam as novidades da última festa de famosos de algum ano longínquo – e não são dois dias sem comparecer ao escritório que vão trazer algum sopro de ar fresco.

Depois de um banho rápido e de engolir um café sem açúcar, percebo que estou olhando há alguns minutos, não sei quantos, para uma rachadura na parede do corredor. Desde quando ela está ali? Deve ter uns oito, talvez dez centímetros. É engraçado como uma parede grande pode ser maculada por uma fissura tão miúda. Um suspiro me lembra que é hora de pegar as chaves do carro e partir.

A manhã no escritório é como muitas outras: um ‘bom dia’ baixinho para a recepcionista, um sorriso meio estranho para o rapaz do elevador que, se eu não estiver enganada, chegou na empresa no mesmo mês que eu; e um copinho descartável de café ruim na mão. Quanto tempo faz mesmo que eu trabalho aqui? Dois anos? Parece mais. Parece um bocado mais.

Cheguei na minha mesa e… eu gosto da minha mesa. Ela é exatamente do tamanho certo. Fria, tem um bom número de gavetas, um porta-retratos no canto direito e não balança como a mesa do escritório lá em casa. Mas hoje não vou ficar muito tempo nela, lembro-me agora. Mas se fosse sentir falta de alguma coisa depois de tudo, seria desse lugarzinho, em frente à minha mesa. Não é que eu goste do trabalho. Nem do chefe, nem dos colegas, nem da rotina nem das conversas, não me leve a mal. Mas sentar na minha mesa é uma metáfora tão adequada dessa monotonia que domina a minha mente há tanto tempo, que eu acho que é meu dever gostar dela. E então, acho que ela é uma boa coisa para sentir faltar. Mas se hoje eu conseguir juntar o tanto necessário de coragem, hoje eu pulo. Eu já fantasiei tanto… Dois momentos sublimes: primeiro, a sensação de estar livre da força da gravidade, e talvez um pequeno lapso de arrependimento que logo passa; segundo, o choque, um estardalhaço! E pronto, silêncio.

Mas antes devo a L. cumprir aquela hora marcada. Ele é uma pessoa fantástica, meu marido. Amoroso, motivado, alegre, parece que tem cem motivos para viver. Eu nem lembro bem como é que acabei estacionando na vida de um homem tão incrível. Ele me olha com um olhar diferente há algum tempo, percebeu um pouco depois de mim que eu não queria mais viver, não podia querer. Com os olhos fechados, parece que tudo é branco, com eles abertos, cinza em alguns tons. Mas acho que não é a vida que eu queria matar, se eu pudesse. É esse vazio maciço. E o engraçado é que talvez o contrário é que aconteça.

São 10:00 horas e saio agora do escritório sem avisar ninguém – acho que não sentirão minha falta pelo tempo que preciso – e sigo pela Avenida 4 até enxergar o imponente edifício onde fica o consultório da Dra. S. (se chama os terapeutas de ‘Doutor’?). O seu consultório fica no sétimo andar e o encontro sem muitas dificuldades, sentando-me na cadeira para esperar o meu horário. Na parede em frente vejo uma fotografia assinada por Kevin Carter.

Alguns segundos depois, a Dra. S abriu a porta e me convidou a entrar. Ela era simpática, um pouco mais baixa do que eu esperava, com olhos serenos. Me desejou bom dia e não disse mais nada. Olhei em volta, um consultório pequeno, alguns livros numa estante de madeira, a iluminação era fraca – provavelmente por projeto – e, além da poltrona para onde ela se dirigia, havia uma poltrona igual no outro canto da sala, bem como um divã, de um verde escuro. Escolhi a poltrona, imaginando que seria mais adequada para um primeiro encontro.

Alguns minutos se passaram antes de ela falar:

-O que te traz aqui?

Hesitei. Parece uma pergunta tão despretensiosa, não é? Mas na verdade não saberia respondê-la.

-Não sei – confirmo.

Ela continuou em silêncio, mas algo na sua atitude me fazia crer que ela não prestava atenção em mais nada, se não em mim, ainda que não parecesse haver nenhuma cobrança, nenhuma expectativa demasiada.

-Eu sempre achei que terapeutas eram coisa de gente doida. E talvez seja mesmo.

A Dra. S não esboçou reação. Continuei:

-Vim por que meu marido marcou.

-E porquê você acha que ele marcou? – questionou.

Dez segundos em silêncio e, meio sem querer, falei:

-Porque eu vou me matar.

Eu me surpreendi com a facilidade com que dei voz às palavras. Eu tinha certeza que com essa a Dra. S. não poderia continuar impassível. Deve ser duro para um terapeuta lidar com um paciente suicida. Prossegui:

-Mas não quero lhe causar preocupação.

-Mas eu não poderia deixar de me preocupar, não acha? – perguntou.

-Acho que tem razão. – algo no semblante dela me trazia uma sensação familiar – Nós já nos conhecemos antes?

Mais um momento de silêncio.

-Me passou… – interrompi.

-Continue! – ela encorajou, com um tom amigável.

-Não… é apenas que me passou pela cabeça que não me despedi de L. Na verdade, gastei os últimos minutos em casa… olhando para uma rachadura na parede.

-E o que é que essa rachadura tinha de tão especial?

-A rachadura? – ‘o que importa a rachadura?’, pensei.

-Você passou os ‘últimos minutos’ do seu tempo em casa, como você disse, olhando para a rachadura, ao invés de se despedir do seu marido.

-A rachadura era precisa… – pausei.

-Precisa…? – indagou.

-Bem… não sei que proveito tem falar aqui da rachadura.

-Mas foi você quem trouxe a rachadura aqui. – Nada do que ela dizia parecia demandar de mim algo que eu não quisesse dar, mas tudo soava desafiador, de uma forma amistosa. – Se ela tem alguma importância, é só você quem pode dizer.

Mais alguns minutos de silêncio, talvez dois ou três.

-Um terapeuta não deveria tentar convencer o paciente a desistir do suicídio?

-É o que você quer que eu faça? Que tente lhe convencer a desistir do suicídio?

-Não é que eu queira. Só achei que fosse preciso, sabe? Uma exigência ética, ou coisa assim.

-Você achou que fosse preciso… para quem?

‘Isso está começando a me irritar’. Porquê ela se atinha aos detalhes mais insignificantes do que eu falava?

-Não é bem isso… Não foi isso que eu quis dizer. – Suspirei. – Mas afinal foi o que eu disse, não é?

Ela permaneceu incólume.

-Você parece fissurada no que não significa nada.

Fissurada como uma rachadura?

Será que é isso que eles chamam de inconsciente? Essa insistência em dizer que a gente disse o que a gente não quer dizer? Não consegui falar mais nada. Alguma coisa estava me incomodando muito, ainda não conseguia discernir direito o quê. Era como se um véu começasse a colorir a sala com um tom azul escuro. “Azul escuro é melhor que cinza, não é?”, pensei.

-Nosso tempo acabou. – Disse a Dra. S., interrompendo os meus pensamentos e dando um instante para que eu compreendesse o que ela havia dito. – Nos vemos segunda que vem, no mesmo horário?

Olhei nos olhos dela por um instante, levantei-me, ela acompanhou o movimento. Peguei minha bolsa e saí.


A ponte fica no caminho para casa e já posso avistá-la agora. Nunca tinha reparado que é uma ponte suspensa bonita, imponente, com suportes amarelos formando o que lembra um grande leque metálico. As faixas de trânsito são largas e na passagem reservada aos ciclistas e pedestres há espaço suficiente para estacionar. Ao descer do carro, a gravidade ainda atua e foi mais difícil ficar de pé do que eu esperava. Caminho até a beirada e olho o céu cinzento acima, o asfalto duro abaixo e uma rachadura aos pés. (…) Uma angústia começou a tomar conta de mim como se a rachadura da ponte fosse mesmo uma fissura em mim, nos meus pés, e algo estivesse entrando, ou talvez saindo de mim. Era como um fluxo frio, que fazia um nó na garganta e tremer os joelhos. Não era medo. E o mais estranho é que era angústia. Será que a gente sai angustiado da terapia?

Coloquei a mão no bolso e apanhei o celular que tocava. Na tela, aparecia o contato da Dra. S. Antendi e, antes que ela tivesse tempo de dizer alguma coisa, falei:

-Nos vemos semana que vem.

Anúncios